Sejamos Ridículas
Devaneios sobre vergonha, escrita e a coragem de existir em voz alta
“A vida é hoje. Você tem que ver a vida da forma como quiser, sem se importar com o que as pessoas pensam. Voce vai morrer e … e ninguém tá nem aí.”
Rolando o feed outro dia, me deparei com um vídeo que começava com essa frase. Fiquei até o final. O vídeo era do fotógrafo do perfil @isthisreal, um artista que captura momentos, fotografa pessoas comuns nas ruas do Rio de Janeiro com uma delicadeza que enche o coração. O trabalho dele é um escândalo de beleza. Gente comum, com tanta sabedoria de vida, com tanto a ensinar. Toda vez que aparecem no meu feed, eu paro pra ver.
Nesse vídeo, com alegria escancarada, elas falaram sobre vergonha. Uma delas estava com vergonha de tirar foto. A irmã disse: tira mesmo assim. E elas tiraram.
Vergonha. Essa coisa que nos paralisa.
O olhar do outro é tão formativo para o que a gente faz — ou deixa de fazer. E o mais curioso é que, na maioria das vezes, é o olhar de gente que a gente mal conhece, ou mesmo gente que nunca viu. E mesmo assim, nos inibem tanto, a ponto de não fazermos aquilo que mais queremos fazer.
Puxo isso para a escrita — que é também esse lugar da vergonha.
Vez ou outra, alguém me diz que quer escrever. Ou que já escreve, mas não publica. Não mostra para ninguém. Guarda no computador, num caderno, num lugar onde só elas têm acesso. Por vergonha. Vergonha de se expor, do julgamento, do o que vão pensar.
Lembro de uma participante de um dos nossos grupos de escrita que disse que toda vez que escrevia, ela lembrava da Tia Maria. Uma tia com quem nem tem mais contato, mas que ela imaginava lendo cada linha, franzindo a testa, julgando. E assim ela travava. A Tia Maria, que provavelmente nem sabe que existe um texto, ocupa o assento de editora-chefe da cabeça dela.
Me identifiquei. Também já fui essa pessoa. Eu também já senti isso. Muito.
Pensava em leitores que eram personagens do meu passado: amigos distantes, pessoas que não vejo há décadas, mas que de alguma forma eu imaginava ali, lendo, julgando. Como se minha escrita precisasse passar pelo crivo de quem nem faz mais parte da minha vida.
A real é que não somos tão importantes assim. E mesmo que eles leiam … e daí?
Lembro de uma frase da Rafaela Carvalho que me tirou do lugar. Ela dizia: “Por medo de ser ridícula, muitas vezes eu não fui nada.” Quando ouvi, há muitos anos, me pegou de jeito. Porque me reconheci ali. Todinha. Naquele medo do ridículo que me fazia encolher, calar, guardar.
Desde então, tenho sido muitas. Tenho feito várias coisas. E tenho certeza que às vezes sou ridícula, mas prefiro ser ridícula a ser nada. Prefiro isso a não colocar nada no mundo, a sufocar projetos que pedem voz, a engolir histórias que merecem ser contadas.
Agora, com uma adolescente em casa, vejo esse pavor do ridículo estampado nos olhos dela. Aquele medo nítido, visceral, que eu reconheço tão bem. E paradoxalmente, isso me ajuda a ser cada vez mais ridícula. Mais corajosa na exposição. Mais leve no julgamento de mim mesma.
Maturidade? Experiência acumulada? Talvez. Ou talvez seja só que aprendi — na marra — que o ridículo não mata. Sejamos ridículas. Sejamos honestas com a gente.
Sustentar o desconforto da vergonha é brutal. Eu sei. Mas também é treino. É hábito. É músculo que se constrói publicação a publicação, texto a texto, foto a foto.
Quando você publicar o primeiro texto, vai ver que a vergonha não mata. Pode doer um pouco. Mas não mata. E depois melhora.
Sigo os ensinamentos daquelas irmãs na praia do Rio. Pra tudo na vida.
A vida é hoje. A gente pode morrer amanhã. E a Tia Maria, ou aquele eprsonagem do meu passado, com todo o respeito, não precisa aprovar nada.
Sejamos ridículas. Sejamos honestas. Sejamos.
Obrigada pela companhia.
Com amor,
Bel
Esse foi o vídeo que assisti:


