Cadê a poesia?
Sobre atenção, tédio e o que perdemos quando não prestamos atenção na vida
Eu estava voltando de algum lugar que não me lembro qual. No SkyTrain, meu ouvido latejava da pressão e eu tentava, em vão, fazer aquele movimento de engolir a seco para desentupir um pouco. Escuto no alto-falante que é a minha estação. Saí. Peguei a escada rolante, fui para o ponto de ônibus. Mais algumas paradas e estaria em casa.
Foi quando olhei para aquela cena.
Todas as pessoas no ponto estavam em seus telefones. Deviam ser umas 15 pessoas — cada uma em seu universo particular, ombros retraídos, pescoços curvados para baixo. E não estou julgando, porque certamente poderia ser mais uma ali. Mas aquela cena me chocou tanto que segurei minha urgência de pegar o telefone, de preencher o tédio da espera e fiquei ali. Só observando
Fiquei o resto do dia pensando em onde colocamos a nossa atenção.
Em como desaprendemos a sentir o tédio. Em como uma fração de segundos de espera num ponto de ônibus já nos faz, automaticamente, pegar o telefone e mergulhar em vidas alheias, da grande maioria de pessoas que nunca vamos conhecer.
Fiquei pensando também na escrita. Nesse gesto de encontrar histórias para contar. De onde nascem os textos? Do cotidiano. Da vida. Da observação. Das conversas que temos, do que ouvimos, do que experienciamos, do que vemos.
Mas se não estamos vendo — com o olhar constantemente para baixo. Se não estamos ouvindo — presos em nossos fones o tempo todo. Se não estamos tendo conversas aleatórias, encontros inesperados — fica cada vez mais difícil nascer uma ideia. Qualquer ideia.
Uma participante do meu clube de escrita me mandou um texto para avaliação. Era sobre uma visita ao posto de gasolina. Simples. Cotidiano. Ordinário. E o texto estava belíssimo: com pitadas de humor, reflexões, crítica.
É exatamente daí que nascem os textos. Da vida miúda, observada com atenção. Das pedras no caminho que alguém se deu ao trabalho de parar e olhar. Mas se andamos tão distraídos … o que nos resta? Correr para a IA para que ela, pelo amor das Deusas, nos ajude a criar alguma coisa? A vida nos oferece faíscas o tempo todo. Cabe a nós fazer a fogueira.
Lembro de Adélia Prado, que escreve: Às vezes Deus me tira a poesia e eu olho pedra e vejo pedra mesmo.
Sinto que estamos todos assim. Endurecidos. Vendo pedra o tempo todo.
Cadê a poesia?
Spoiler: ela não está na IA. Ela está no ponto de ônibus, no posto de gasolina, na cena que você quase não viu porque o telefone estava na mão. Exercitar o olhar de quem anda pela vida atenta. Esse é o caminho de volta.
Esse texto é um apelo, talvez. Um apelo para que a gente deixe um pouco de lado os telefones e volte para a vida. Porque ela está o tempo todo conversando com a gente.
A pergunta é: estamos ouvindo?
Obrigada pela companhia!
Com amor,
Bel
Uma novidade antes de ir:
Falando em olhar atento para a vida — as inscrições para o próximo ciclo do Clube de Escrita estão abertas.
Esse será o quarto ciclo — de agosto a novembro, quatro meses, quatro encontros. É sempre uma delícia partilhar esse espaço com pessoas que olham para a pedra e buscam a poesia.
Os encontros acontecem sempre aos sábados, com 2h30 de duração. A cada encontro, exploramos um tema e recursos literários, e depois fazemos várias rodas de escrita através de exercícios guiados — seguidas de partilha em grupo. Escrever em grupo de mulheres é uma experiência maravilhosa. É acolhimento, é espelho, é coragem coletiva.
Se ficou interessada, é só me chamar aqui. Conto mais com muito prazer. :)



Ao mesmo tempo que muita coisa acontece na vida, muita coisa acontece no digital. Ontem mesmo não entrei e peguei várias conversas pela metade no raio dos stories. Lugar de 24 horas, onde a maioria de nós cria, partilha, puxa assunto. E daí, venceu, acabou. Quem viu, viu. Não vi e me dá a sensação que perdi parte da conversa. Amo quando são textos ou posts ou vídeos no youtube pq me dá menos pressa, sinto que posso chegar no meu tempo… Quero voltar a criar, a partilhar e fico: como fazer isso sem aumentar ainda mais essa roda da distração.