A credencial
Sobre sonhos que mudam de mãos sem deixar de ser nossos
Ontem, João pegou a credencial para trabalhar na Copa do Mundo.
Sim, ele vai ser um dos produtores locais aqui em Vancouver. E eu fiquei olhando para aquele pedaço de plástico com foto e nome como se fosse uma relíquia. Porque, de certa forma, é.
Realizar sonhos é uma coisa muito bonita. E também muito estranha.
Os sonhos mudam. Nós mudamos. E nem sempre percebemos o momento exato em que um sonho se transforma em outro. Algumas coisas se vão. Outras ficam. Algumas adormecem por anos e acordam no momento menos esperado, com força total.
Quis fazer cinema na faculdade. Mas cinema, naquela época, era coisa de gente, sei lá, meio hippie, meio doida. Ninguém ganha dinheiro com isso. Acho que todos já ouvimos alguma versão dessa frase em algum momento da vida. Aquela voz que tenta nos proteger, mas às vezes só nos afasta do que somos.
Fui para o jornalismo. Lugar mais seguro, talvez. Gostava de esporte e imaginava que poderia unir as duas coisas — como aquelas que viajavam o mundo nos programas que eu assistia na MTV, com a vida em movimento. Era um sonho dentro do sonho.
Mas quis o destino, ou a minha teimosia (que sempre foi maior do que qualquer plano) que meu primeiro estágio de verdade fosse em uma produtora de cinema.
Lembro até hoje da entrevista. Assim que pisei naquele lugar, soube. Foi uma sensação no corpo. É aqui. Entrei. Trabalhei lá por quatro anos e tive experiências que me formaram. Fiz amigos que carrego até hoje. Guardo aquela época com muito carinho — tão intensa, tão viva, tão formativa.
Saí da produtora quando me formei na faculdade. Dali, direto para o avião. Um ano na Austrália — outro capítulo absolutamente transformador. Quando voltei, depois de alguns meses no limbo daquele que é o espaço entre uma vida e outra, entrei para a TV Globo.
Sonho máster.
Me sentia tão pequena naquele imenso mundo de faz-de-conta que, na verdade, era mais real do que qualquer coisa. Consigo fechar os olhos agora e lembrar do caminho entre os estúdios e as cidades cenográficas — da primeira vez que andei por aquelas ruas que não existiam, mas existiam tanto. Estava entrando em uma escola de vida sem saber disso ainda.
Dez anos. Novelas, programas de TV, reality shows. Rodei o Brasil inteiro. Muitos amigos. Um namorado. Um casamento. O peso que a televisão tem na minha vida é imensurável — não só pelo que produzi, mas pelo que me produziu.
(Achei essa credencial de quando trabalhei no Rock in Rio Lisboa, uma das experiências mais legais desses anos. )
O sonho de todo produtor é trabalhar em um grande evento. Apesar de todos os percalços, perrengues, do trabalho duro, do sangue, suor e lágrimas que envolvem. Realizei alguns sonhos. Outros se transformaram pelo caminho, e essa transformação também é uma forma de realização, aprendi.
Quando migrei, decidi que aquele caminho havia ficado para trás. A Isabel produtora de TV ficava ali, do outro lado do oceano. Dava adeus à escola que foi a Globo, e também à profissão que tanto me deu, e que tanto exigiu. Era um luto e uma libertação ao mesmo tempo. Catártico.
Dez anos se passaram desde essa despedida.
E ontem, João pegou a credencial para trabalhar na Copa do Mundo.
E todas as histórias me voltaram como um tsunami. Trabalhar em um grande evento, como uma copa do mundo, sempre foi um daqueles sonhos que ficaram em suspenso. E hoje, aposentada da TV, vejo João emocionado com a credencial na mão. E percebo: estou realizando esse sonho através dele.
Penso que, às vezes, sonhos não têm um único dono. Que realizar um sonho através do outro não é menos bonito. É diferente. Tem o sabor específico de quem já viveu muito e aprendeu a encontrar alegria também nas histórias alheias.
Sei que quando o João entrar naquele universo de Copa do Mundo, uma parte minha vai estar lá também.
Os sonhos mudam. Nós mudamos. Mas às vezes, se tivermos sorte, eles nos encontram de volta — com outro nome, outro rosto, outra forma.
E a emoção é a mesma.
Obrigada pela companhia.
Com amor,
Bel
(Mais uma foto do Rock in Rio Lisboa - ultimo dia de evento, no meio da madrugada. Acabada, mas extremamente feliz e realizada)




Muito lindo isso da gente também se realizar pelo outro e nos conectarmos pelo sonho. Belo texto, querida.
É muito bom te ler aqui, com espaço, tempo e sem forçar a vista para ler a legenda do instagram. Venha mais pra cá! Fiquei pensando que aquele carrossel "eu sou de lá e também daqui.." daria quase uma série na sua newsletter. Fiquei curiosa com uma coisa: quando você diz que migrou e sabia que deixava aquela versão produtora para trás, você já sabia ou vislumbrava o seu próximo passo profissional?